Diversidade e integração nos mercados culturais da América Latina

Raul Perez

"Num mundo com grandes massas demográficas, enormes concentrações de capital, avanços tecnológicos permanentes e uma potencia militar mundial, a única alternativa que temos é a integração", afirma Daniel Gonzalez, antropólogo formado pela Universidad de Buenos Aires e pesquisador dos mercados e políticas culturais da região latinoamericana. Segundo ele, na última década, o Mercosul permitiu um crescimento impressionante dos intercâmbios - antes focados em grandes empresas transnacionais e agora voltado a empreendimentos de médio e pequeno porte -, mas ainda é frágil.

A solução, na opinião de Gonzaléz, passa pela criação de mercados internos que correspondam às necessidades dos povos, cenário no qual a diversidade tem papel fundamental. "Ela é a melhor barreira para criar mercados próprios. Sem identidade comum e convencimento num destino compartilhado, os acordos comerciais podem fracassar facilmente", defende. 

Em entrevista ao site do Cemec, o professor do curso Fronteiras Culturais contextualiza o distânciamento entre os países da região e indica como o Brasil, "mesmo sendo hoje a quinta economia mundial", não pode constituir mercados internos suficientemente potentes, sem fortalecer o relacionamento com as nações vizinhas.

Raul Perez - Como os países da América Latina se distanciaram culturalmente?

Daniel González - A diversidade cultural do continente americano tem sua origem no mesmo processo de ocupação humana, muito antes do ano 10.000 AC. Nessa época os grupos que adentraram a América do Norte pelo Estreito de Bering não eram homogêneos, nem genética nem culturalmente, e, de forma muito rápida, se espalharam pelo imenso território e iniciaram processos de adaptação e inovação divergentes. Então, estamos falando de um verdadeiro processo civilizatório milenar que tem a diversidade como elemento substancial. Os grandes estados e impérios de origem americana, como os maias e aztecas, Tiawanaku e Tawantinsuyu (inkas) tinham um centro étnico que envolvia, de maneiras diferentes , distintos grupos étnicos com variadas fontes culturais,  produtivas, religiosas, etc. A partir da chegada dos europeus, aparentemente se inicia uma etapa de certa homogeneização, mas na verdade o que acontece é o ingresso de mais elementos heterogêneos, que inclui também a chegada forçada de diferentes populações africanas.

Um momento muito importante, definidor, no processo histórico é a constituição dos Estado-Nação no continente. No curso, iremos nos ater especialmente à América Latina, particularmente focados na América do Sul. Hoje, nossos países, com seus Estados e sociedades, estão tentando superar as distâncias culturais criadas há duzentos anos. 

A proposta política, ideológica e também econômica e militar dos responsáveis pela independência dos países latino-americanos de fala espanhola foi de unidade continental, que não incluía ao Brasil. Essa proposta não foi completada, mas persiste dois séculos depois, agora com a imprescindível participação brasileira.

Raul Perez - Atualmente, quais são os maiores desafios que impedem o intercâmbio entre as nações?

Daniel González - Na América do Sul coexistem diversas matrizes culturais que no curso vamos tentar identificar, desde as originárias americanas como a andina ou tupi, o barroco, a modernidade em clave sul-americana. A forma Estado – Nação criou imaginários que nos impedem de aproximar muitos fenômenos culturais de uma perspectiva mais acertada. Ou seja, nossas nações participam de processos culturais muito potentes que nem sempre os Estados podem assumir. Principalmente, a ideia de que a América é um território onde a utopia está sempre presente. 

Mas, deveríamos falar não de utopia, sim de utopias, no plural. “A modernidade nos trópicos” (ou seu equivalente nos outros países) é a utopia dos criadores positivistas da maioria das instituições latino-americanas. Apareceu com força nas últimas décadas do século XIX. Mas, muito pouco tempo depois, surgiu na América uma geração de críticos, que aceitando a modernidade chamavam a atenção dos fenômenos populares e dos processos continentais. Na América que fala espanhol voltou à ideia da unidade continental.   No Brasil foi surgindo mais lentamente; esses autores, com escassas exceções como o cubano Martí, são nomes desconhecidos. 

Hoje, os Estados estão envolvidos em avançar em projetos de integração regional (Mercosul, Unasul). O turismo e internet facilitam certas aproximações, muito importantes sem dúvida. Mas, a integração regional deve permitir novas atividades, novos empreendimentos com novos parceiros. No curso vamos tentar nos aproximar a algumas questões que são pouco conhecidas no Brasil, como o pensamento sobre a integração gerado a partir de leituras políticas e culturais de nossas realidades. Um pensamento a partir de utopias que cria possibilidades e que é necessário conhecer. A integração e seus negócios do são bem diferentes da clássica imposição norte-americana, ou da atual tentativa alemã na Europa. A diversidade e as utopias podem ser consideradas valores que geram bem-estar e progresso nos processos de integração.

Raul Perez - O Brasil, sendo o país mais populoso da região e um dos poucos com idioma diferente, parece não ter projetos para inverter essa falta de integração. Isso realmente acontece?

Daniel González - Na America do Sul floresceu a semente da fragmentação medieval da Península Ibérica. Esta realidade que hoje tentamos modificar mostra a força e permanência dos processos históricos. O Brasil, como os países de língua espanhola, já tem uma história de mais de um século de tentativas de superação ativa. Mais de cem anos atrás, o Barão do Rio Branco, o grande formulador da política exterior brasileira ainda vigente, propôs uma aliança militar com Argentina e Chile, conhecido como ABC (pelas iniciais dos países). Hoje parece pouco, e uma questão muito afastada dos temas culturais, mas foi muito importante porque o chamado Cone Sul começou a pensar nos países vizinhos como aliados e que qualquer agressão, pelo mesmo, devia ser externa à região. O passo da desconfiança à paz é primeiro uma mudança cultural.

Infelizmente, esta iniciativa ficou nessa aliança, que depois não foi renovada e voltou à desconfiança com os governos militares até os anos 80, com a retomada dos governos democráticos. Os acordos para estabelecer controles mútuos em energia nuclear entre Brasil e Argentina e a firma do Tratado de Assunção que cria o Mercosul, foi possível pelo envolvimento ativo do dirigentes brasileiros. Neste século XXI, assistimos a um salto qualitativo fenomenal. Ainda não somos plenamente conscientes das oportunidades geradas. Um novo desafio é a criação de empreendimentos com sócios de dois ou mais países, que necessariamente tem que contar com a participação brasileira. Eu acho que um limite muito importante que temos em todos os países é o relativo desconhecimento mútuo. Agora existe, mas ainda é superficial. No plano dos negócios, fazê-los num marco de integração é muito diferente do que sem ele.

Raul Perez - Até que ponto as atuais políticas de intercâmbio entre países latino-americanos são eficientes? Podemos falar duma integração baseada no mercado?

Daniel González - Nos últimos dez anos o Mercosul permitiu um crescimento impressionante dos intercâmbios. Numa primeira etapa estavam focalizados em empresas transnacionais que integravam sua produção, como as automotrizes. Depois, em investimentos financeiros. Hoje é importante para empresas medianas e até pequenas. Mas, ainda é relativamente frágil. Num mundo com grandes massas demográficas, grandíssimas concentrações de capital, avanços tecnológicos permanentes, é uma potencia militar mundial, a única, sem opções, alternativa que temos é a integração. 

Precisamos criar mercados internos que respondam às necessidades de nossos povos. A diversidade já não pode ser entendida como um empecilho para o bem-estar (o desenvolvimento, o progresso). Ela é a melhor barreira para criar mercados próprios. Sem identidade comum e convencimento num destino compartilhado os acordos comerciais podem fracassar facilmente. Jean Monnet, um dos ideólogos e gestores principais da unidade europeia iniciada no aço e no carvão, afirmou: “se tivesse de voltar ao princípio, começaria pela cultura”.  O Brasil, mesmo sendo hoje a quinta economia mundial e tendo um papel muito importante, não pode constituir mercados internos suficientemente potentes em rubros que exigem alto valor agregado. Precisa da outra metade da America do Sul. E o mesmo, mas em condições ainda mais graves e urgentes, acontece com o resto países da America do Sul.

O mercado aparece para muitos como um monstro que devemos evitar. Mas é iniludível. Hoje temos muitos desafios. Eu gostaria ressaltar três que serão considerados no curso: a necessidade de nos conhecer com maior profundidade, a criação de mercados integrados baseados nas matrizes culturais próprias de nossa diversidade, a invenção dum novo modelo de integração que responda a nossa historia e a nossos sonhos comuns. Estou convencido que só assim podemos na America do Sul ter uma posição ativa no mundo. As crises do hemisfério norte algum vai passar. Nesse dia, realmente vamos poder avaliar se aproveitamos as imensas possibilidades do presente. 

O curso Fronteiras Culturais será realizado nos dias 8 e 9 de dezembro no Cemec. Para mais informações, clique aqui